A interpretação de conferências: interfaces com a tradução escrita e implicações para a formação de intérpretes e tradutores

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Reynaldo Pagura, 2003, vol. 19, n.spe, pp. 209-236.

A partir de três perguntas iniciais, Pagura aponta diversos processos relacionados à interpretação de conferências. São elas:

  • Quais são as semelhanças entre tradução e interpretação que poderiam ter gerado confusõe entre as duas atividades?
  • E quais são as diferenças que viriam justificar uma separação entre as duas atividades?
  • Que implicações essas possíveis semelhanças e diferenças teriam para o processo de formação de tradutores e de intérpretes?

Para chegar a essas respostas, ele começa por um histórico da interpretação, começando pelo início, datado desde a antiguidade, chegando a uma maior formalização durante a I Guerra Mundial. As transformações na formação dos intérpretes, objeto do início e do final do trabalho, em que trata do assunto em maiores detalhes a partir da Teoria Interpretativa da Tradução, de Seleskovitch e Lederer. Essa é a teoria em que o autor mais se apoia e que, ainda que cada vez mais apreciada, ainda seja criticada por muitos.

Uma das questões principais são as diferenças e semelhanças entre a tradução e a interpretação, muitas vezes confundidas entre si, e geralmente por pessoas que não pertencem à área ou não possuam conhecimento específico.

O autor defende a Teoria Interpretativa da Tradução, alegando que as críticas feitas por alguns linguístas não puderam não foram fundamentadas objetivamente.

Pagura destaca a necessidade de se escrever a história da interpretação no Brasil, uma vez que dispomos apenas de algumas informações superficiais e espalhadas. Essa necessidade urgente também se dá devido ao fato de os pioneiros da interpretação no Brasil possuírem uma idade avançada ou já terem falecido. Caso essa história não seja registrada imediatamente, não será possível mais escrevê-la em alguns anos.

A partir do capítulo 3 da tese, o maior foco é a interpretação de conferências no mundo. Nesse capítulo são apresentados os primeiros intérpretes de conferência que atuaram em eventos internacionais após a II Guerra Mundial; a história dos órgãos em que estes se fizeram necessários, como a Liga das Nações. O autor, para manter sua prioridade na interpretação no Brasil aponta que a língua portuguesa não fez parte desses eventos, onde não havia intérpretes brasileiros.

O autor também mostra o surgimento da interpretação simultânea e as dificuldades que os primeiros intérpretes enfrentaram, relatando que a atividade passou a ser mais aceita e bem vista após seu uso no Julgamento de Nuremberg. Os intérpretes presentes no julgamento receberam algum treinamento para exercer a função, o que não ocorreu em outro evento apresentado pelo autor, o ‘Julgamento dos Criminosos de Guerra do Japão’. A partir deste momento, surge uma rivalidade entre intérpretes consecutivos e simultâneos, que se veem obrigados a demonstrar as vantagens da prática simultânea. Com isso, a simultânea começa a ser mais solicitada e, após algum tempo, os dois métodos passam a conviver lado a lado. O capítulo conclui abordando a tradução por profissionais autônomos, o tipo de profissional mais utilizado hoje em dia.

O autor defende melhores condições de trabalho para os intérpretes e a necessidade de se escrever a história da interpretação no Brasil e no mundo, a despeito da existência de um número significativo de informações e publicações disponíveis sobre a interpretação no mundo.

Ao abordar inicialmente o ensino da interpretação, o autor mostra que não havia material didático consolidado e que o primeiro livro didático para interpretação foi publicado só em 1952, com ênfase apenas na interpretação consecutiva. Em 1959 é lançado um livro dedicado às anotações na interpretação consecutiva. O autor comemora o primeiro livro dedicado ao ensino da interpretação simultânea, lançado em 1962. São citadas as características principais de todas as obras citadas sobre interpretação consecutiva e simultânea e é mostrado que muitas dessas técnicas ainda são aplicadas ao ensino nos dias atuais.

O tema principal, o ensino da interpretação no Brasil, é abordado em seguida. A primeira universidade analisada é a PUC-Rio cujo curso de intérprete sofreu diversas mudanças ao longo do tempo, indo de um curso ligado à tradução até o atual curso de extensão. Na seção dedicada ao curso oferecido pela Alumni, o autor conclui que “Não havia um currículo pré-estabelecido e as disciplinas eram acrescentadas à medida que os cursos aconteciam”. Quando o curso chegou na PUC-SP, a facilidade era maior assim como a bibliografia disponível. Cursos menores também são citados, além de iniciativas independentes e não institucionais para o treinamento, e não a formação, de profissionais. Muitas dessa iniciativas são voltadas para o agenciamento de intérpretes, sendo que diversas delas cobram preços muito abaixo do mercado, oferecendo remuneração igualmente baixa para os profissionais. O autor é enfático ao defender cursos dedicados exclusivamente à formação de intérpretes, criticando aqueles que se propõe a formar tradutores-intérpretes, uma ideia considerada absurda.

Pagura observa havar um “consenso internacional sobre os pressupostos necessários para a formação de intérpretes de conferência”. Mais à frente são abordadas questões mais práticas do ensino considerado correto de algumas universidades, comprovando esse consenso e sua utilidade e aplicabilidade. Ele aponta para a necessidade de uma prática de tradução escrita prévia e de professores de interpretação que já tenham experiência em interpretação.

A tese encontra-se disponível em: A interpretação de conferências: interfaces com a tradução escrita e implicações para a formação de intérpretes e tradutores