A tradução vivida

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Referência[edit | edit source]

RÓNAI, Paulo. A tradução vivida. 3. ed. rev. ampl. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.

Introdução[edit | edit source]

A tradução vivida é composto de vários artigos sobre tradução, da mesma forma que Escola de Tradutores, podendo até ser considerado como complemento e ampliação daquele livro, e ainda mais rico em exemplos e assuntos práticos. Conhecedor de muitos idiomas, o autor utiliza exemplos em vários deles, principalmente em francês, língua estrangeira então ainda dominante.

Capítulos[edit | edit source]

Definições da tradução e do tradutor[edit | edit source]

Primeiramente, Paulo Rónai comenta os vários tipos de tradução: interlingual, intralingual, sociolinguística e intersemiótica, e destaca que aquela da qual vai tratar, e que interessa ao nosso trabalho, é a interlingual. E, mesmo dentro dela, declara que as considerações do livro visam principalmente à tradução literária, “acenando apenas acessoriamente às variantes científica, técnica, comercial, cinematográfica etc.”. (p. 16-17)

A tradução interlingual é muitas vezes pensada, pela maioria das pessoas, como uma atividade mecânica de substituição, uma por uma, das palavras de uma frase numa língua pelas equivalentes em outra. Na realidade, porém, as palavras, e até mesmo as frases, estão sujeitas a ambiguidades, e seu sentido depende das outras palavras e frases associadas a elas, o que faz da tradução uma atividade seletiva e reflexiva. (p. 17-18)

Tocando no assunto da oposição entre tradução literal e livre, o autor mostra que “a noção de fidelidade implica talvez menos aderência às palavras da língua-fonte do que obediência aos usos e às estruturas da língua-alvo”. (p. 18-19) Em seguida, enumera diversas tentativas de definir a tradução através de símiles os mais diferentes, criados por autores, leitores e pelos próprios tradutores ao longo dos tempos. (p. 19-25)

Pela diversidade das analogias apresentadas pode-se entrever a complexidade intrínseca da tradução, da qual o autor pretende analisar alguns problemas. Começa pela figura da pessoa que empreende a tarefa de traduzir, e mostra a oposição entre o que seria ideal (“que as editoras escolhessem indivíduos particularmente capazes de executá-la após haverem-lhe verificado a idoneidade por meio de testes; e que só se dedicassem a traduções literárias pessoas especialmente interessadas em literatura, dotadas de sensibilidade artística, e com profundo conhecimento de ambas as línguas”) e o que acontece na realidade (as editoras preferem “tarefeiros que executem determinada tradução dentro do menor prazo possível”; e os candidatos a tradutor procuram a tarefa não por uma simpatia pessoal, mas como bico, sendo na maioria das vezes escritores que as editoras têm mais à mão). (p. 25-27)

Voltando ao tradutor ideal, seu primeiro requisito é o conhecimento sólido da língua para a qual traduz, o qual se adquire com a “leitura atenta e contínua dos bons autores, pela frequentação de livros inteligentes sobre o próprio idioma, pelo estudo incessante dos meios de expressão”. [grifo do autor] (p. 27)

Obviamente, o tradutor também precisa conhecer a língua da qual traduz; não sabê-la de cor, o que é impossível até mesmo para a língua materna, mas adquirir um sexto sentido que o faça perceber as armadilhas da língua, que não permitem a tradução ao pé da letra. Por fim, outro ingrediente indispensável é o bom-senso, necessário para perceber quando os dicionários não resolvem uma dúvida; quando a solução não ficou boa, ou ficou ambígua, na língua-alvo; quando é necessária uma nota ou explicação suplementar; quando se deve ser mais livre ou mais literal. E lembrando que é difícil saber como conseguir esse ingrediente, Rónai sugere que é então que “os nossos cursos de tradução poderiam vir em auxílio de seus alunos pelo comentário e análise de traduções já publicadas, apontando os casos onde a sua falta redundou em prejuízo”. (p. 27-29)

Além dessas primeiras qualidades, o tradutor precisa ainda de uma boa cultura geral, curiosidade e desconfiança sempre alerta. Se pensarmos que se exige tanto em se tratando de um oficio mal pago e pouco prestigiado, e que mesmo assim grandes escritores de todos os tempos se entregaram à tradução, concluiremos que o trabalho oferece outras compensações que não as financeiras. E realmente, nas palavras de Rónai, “a tradução é o melhor e, talvez, o único exercício realmente eficaz para nos fazer penetrar na intimidade dum grande espírito”. (p. 29-31)

Por fim, Rónai encerra o capítulo citando alguns livros sobre a tradução para os aprendizes do oficio, relembrando também alguns exercícios que podem complementar a sua leitura: a versão de alguma obra já traduzida, com uma subsequente comparação com a tradução alheia; o confronto de uma tradução com seu original; a comparação de duas traduções da mesma obra; a comparação de uma versão portuguesa com uma numa terceira língua que se conhece. Tudo isso com a tomada de notas, organização de listas de equivalências, termos específicos, frases feitas e locuções figuradas, além do estudo constante da língua de especialização do tradutor. (p. 31-33)

As armadilhas da tradução[edit | edit source]

Em última análise, a maioria das muitas armadilhas da tradução provém da fé na existência autônoma das palavras, que traz a convicção de que a cada palavra de uma língua corresponde outra noutra língua, o que não acontece na realidade, pois cada palavra só tem sentido na frase e contexto em que está inserida. (p. 34-35)

Outro perigo é nosso instinto etimologizador. Ele pode nos ajudar a compreender o sentido das palavras e até a adivinhar o significado de uma palavra estrangeira, mas podem causar confusões, já que cada língua evolui de maneira diferente. (p. 35-36) Uma das consequências dessa evolução autônoma das línguas é a polissemia, que faz com que uma palavra tenha vários equivalentes conforme o contexto. Assim, o correspondente mais comum de uma palavra geralmente não pode ser usado em todas as situações que ela pode. Além disso, o tradutor pode, ao traduzir uma palavra estrangeira com dois correspondentes na língua da tradução, ser levado a traduzi-la sempre pela forma mais parecida, ficando ameaçado de nunca usar a mais rara, que é uma riqueza da sua própria língua. (p. 36-37)

Armadilha ainda pior são os falsos cognatos, palavras parecidas em dois idiomas, mas com sentidos diversos, podendo ser palavras de origem comum cujo sentido se distanciou por sofrerem evoluções semânticas diferentes, ou mera coincidência, quando duas palavras de origem totalmente diversas evoluem para uma forma parecida. Rónai cita diversos exemplos no francês, no inglês, no espanhol e no italiano, e remete ao livro A Arte de Traduzir, de Brenno Silveira, no qual se encontra uma relação de falsos cognatos franceses, espanhóis e italianos. (p. 37-40)

Outras tantas ciladas advêm dos homônimos existentes em cada língua, os quais as estilísticas distinguem entre etimológicos, “palavras de origem diferente, às quais o acaso das mutações fonéticas acabou conferindo pronúncia e, frequentemente, grafia idênticas ou semelhantes”, e semânticos, “apenas casos de polissemia, mas em que o indivíduo falante já não sente as duas acepções de uma só palavra”. Ambos representam fonte de problemas e confusões para o tradutor, e de trocadilhos para os nativos. (p. 40-41)

Abrindo um parêntese para tratar do trocadilho, Rónai ressalta o seu importante papel na literatura, mas afirma que “todo trecho faceto em que a graça é produzida por um jogo de sentido é intraduzível por excelência”. Em casos, porém, em que um personagem tem a mania de fazer trocadilhos, Rónai sugere que o tradutor lance mão do recurso da compensação, colocando jogos de palavras em outros trechos nos quais eles sejam possíveis na sua própria língua, aproveitando a imaginação “de que todo profissional tem de possuir uma boa dose”. (p. 41-43)

Voltando aos homônimos, o autor cita vários exemplos em francês, inglês, espanhol, latim, alemão, italiano, russo, húngaro e português. (p. 43-44)

Outras armadilhas são os parônimos, palavras de mesmo radical, mas prefixo ou desinência diferente, ou ainda palavras semelhantes com sentido completamente diferente. Os dois tipos representam problemas para o tradutor, ainda mais o segundo, pois a confusão pode vir já no original. (p. 44-45)

Também os sinônimos são uma cilada na tradução, já que não existem sinônimos perfeitos, intercambiáveis em todos os enunciados possíveis. Assim, o tradutor precisa “ponderar a escolha de cada vez que para um termo estrangeiro existirem dois ou três equivalentes no seu idioma”, e no caso de haver “abundância de sinônimos para determinada noção nas duas línguas, o bom tradutor procurará determinar o matiz, o sabor, a aura social daquele que figura no original para transportá-lo em sua língua”. (p. 45)

Também constituem problemas as holófrases, “palavras que exprimem noção peculiar a um idioma”. Sua tradução só é possível pelo recurso a circunlocuções extensas. Rónai acrescenta que “quando o tradutor faz questão de ressaltar que no original se trata de noção expressa por meio de uma palavra só, usará hifens”. Em sentido mais lato, também são chamadas de holófrases “palavras que designam noções peculiares a uma civilização, sem correspondente nos demais ambientes culturais”, impossíveis de traduzir por circunlóquios, pois eles não exprimiriam todo o seu conteúdo complexo. Geralmente essas palavras acabam sendo incorporadas pelos idiomas cultos na sua forma original. (p. 45-48)

O autor comenta que “têm-se exagerado em excesso as dificuldades da tradução das palavras holofrásticas ou exclusivas de uma civilização” e afirma, muito apropriadamente, que lhe parecem “bem mais frequentes e praticamente insolúveis as que resultam das reações diferentes que as palavras mais comuns suscitam em ambientes diversos”. (p. 49)

Rónai comenta ainda os nomes próprios, palavras destituídas de significado, mas que podem ter, na literatura, um forte valor conotativo. Não existe uma regra geral para sua tradução, mas o autor recomenda o uso de notas em certos casos em que o nome tem relação com o caráter da personagem; recomenda a não tradução de hipocorísticos e apelidos carinhosos, mas a versão dos nomes próprios usados metaforicamente como nomes comuns (Tizio, Caio e Sempronio, no italiano, ou Fulano, Sicrano e Beltrano, no português). No geral, recomenda atenção ao lidar com os antropônimos, em especial os da Antiguidade, geralmente naturalizados. (p. 50-52)

Ainda tratando de armadilhas ligadas à conotação, Rónai comenta os topônimos e os adjetivos pátrios, cujo valor conotativo também varia de acordo com o lugar em que são usados. (p. 52-55)

E, por fim, o autor fala da tradução de metáforas. Divide-as em dois tipos: as consagradas, empregadas sem que o falante se lembre do sentido primitivo das palavras que as compõem, e as passageiras, criadas pelo falante ou escritor. Estas últimas seria conveniente traduzir literalmente, enquanto as primeiras é melhor substituir por outra locução igualmente figurada, embora com elementos diferentes, na língua da tradução. Quando, entretanto, não é possível encontrar uma expressão de igual teor, pode-se traduzir a metáfora pela sua explicação e, pelo método da compensação, empregar uma locução figurada assim que possível para não empobrecer o texto. (p. 55-58)

Concluindo o capítulo, Rónai diz que o problema das metáforas “lembra-nos mais uma vez que não estamos traduzindo palavras, mas sentenças” (ou até parágrafos ou textos, poderíamos acrescentar). Afirma então que “o bom tradutor, depois de se inteirar do conteúdo de um enunciado, tenta esquecer as palavras em que ele está expresso, para depois procurar, na sua língua, as palavras exatas em que semelhante ideia seria naturalmente vazada”. (p. 58)

Os limites da tradução[edit | edit source]

Continuando a analisar as dificuldades da tradução, o autor começa este capítulo abordando os recursos da linguagem que não a palavra, como a entoação, os gestos e os jogos fisionômicos. (p. 59-60) Também é comentada a importância de certos ritos, hábitos e convenções sociais, que complementam a linguagem falada, conhecidos como linguagem silenciosa. (p. 60)

A língua escrita também tem recursos acessórios além das palavras, como os sinais de pontuação, e o autor alerta que “assim como os elementos da linguagem silenciosa, os sinais tipográficos podem mudar de sentido conforme o país”. Um exemplo citado por ele é a omissão da vírgula em enumerações no italiano, segundo ele “ainda frequente apesar de os gramáticos a desaconselharem”. No entanto, o autor ressalva que “quando um autor adota pontuação pessoal, divergente da em geral adotada, o bom tradutor tentará conservar essa particularidade em sua versão”. (p. 60-62 e 68-70) Rónai também observa que o uso de maiúsculas e minúsculas pode ter intenções que o tradutor precisa saber descobrir. Nesse ponto, o autor comenta a maiúscula de cortesia, característica da língua italiana que deve ser pelo menos citada em nosso trabalho. (p. 66-68)

Muito interessante, e geralmente negligenciado em outras obras, é o problema das citações disfarçadas, consequência da intertextualidade (p. 62-66):

Cada obra é o último elo de uma longa evolução e, de certa maneira, é baseada em todas as obras anteriores da mesma literatura. Eis porque, em línguas cujo uso culto possui longa e forte tradição, como, por exemplo, o inglês e o francês, mesmo textos não-literários, desprovidos de ênfase, e até textos de caráter técnico, científico ou comercial, são entremeados de reminiscências literárias, não distinguidas por nenhum sinal especial dentro da página impressa. Por fazerem parte da memória nacional, tais sentenças e versos têm forte carga afetiva, que desaparece se o tradutor os servir a seus leitores sem qualquer advertência, nem um par de aspas sequer. (p. 62-63)

O autor ainda aponta vários outros componentes não-vocabulares que modificam o sentido de um enunciado, como a escolha do alfabeto e a ordem de colocação das palavras. (p. 71-77)

Também é mencionada como elemento estrutural gerador de sentido a repetição, com diferentes significados de língua para língua. (p. 77-78)

No italiano a repetição é processo intensificador em exemplos como mogio mogio, tratto tratto, adagio adagio, piano, piano, e não somente em expressões adverbiais; é comum uma frase como: No no, scusa scusa, zitto zitto. Por se tratar de característica geral da língua, não peculiar a um escritor, será preferível não copiá-la na tradução. (p. 78)

Aparentemente inofensivo, também é citado como possível causador de percalços o artigo definido, já que seu emprego é diferente em cada idioma. Enquanto no português, por exemplo, ele é usado antes de nomes próprios para dar valor afetivo (o Francisco, o Zé, a Marcela), no italiano é usado antes de sobrenomes ilustres (l’Alighieri, la Duse, il Pirandello). (p. 78-80)

Também os pronomes merecem muita atenção: “Precisamente por seu sentido ser óbvio, prestam-se mais ao erro que os substantivos menos familiares, pois esses, pelo menos, são abordados com desconfiança.” (p. 80-81)

Rónai ainda trata de outros pontos que inesperadamente podem trazer problemas para o tradutor: axiônimos, numerais, conectivos e palavras estrangeiras utilizadas no original. (p. 83-88)

Usos e abusos da tradução[edit | edit source]

Este capítulo trata de questões mais editoriais que textuais relacionadas à tradução: a influência prejudicial do best-seller, a remuneração inadequada e a pressa, a escolha do original, o recurso a traduções intermediárias, a tradução a quatro mãos, as traduções por meio do português de Portugal, as adaptações, as alterações e correções do original, as vantagens e desvantagens do copy-desk, a tradução dos títulos. Rónai também faz um panorama do desenvolvimento da indústria editorial brasileira no século XX. Alguns pontos mudaram atualmente, para melhor ou para pior, mas muitos comentários continuam válidos para o meio editorial de hoje, mais de trinta anos depois das conferências que deram origem ao livro. (p. 89-109)

As falácias da tradução[edit | edit source]

A primeira das “falácias” de que trata Rónai é a ilusão de se poder aprender a traduzir por meio de tratados:

Ora, como organizar um manual da tradução, se esta arte (ou oficio, se querem) escapa a toda sistematização? Na verdade, a tradução aprende-se traduzindo. Não quer isto dizer que não se deva meditar o assunto por escrito; apenas que não se pode esperar de um manual de tradução a precisão e a eficácia de um tratado de Óptica ou de Geometria. (p. 110)

A título de exemplo, Rónai aponta alguns problemas de uma tentativa de sistematização da tradução, presente no livro A arte da tradução, de Theodore Savory. Savory, entre outros pontos contestados por Rónai, sugere a formulação por parte do tradutor, a cada parágrafo e até a cada frase, de três perguntas para si mesmo: 1) O que o autor diz?; 2) O que ele quis dizer? e 3) Como o disse? (P. 111) Mesmo admitindo que o conselho não deve ser tomado ao pé da letra, que essas indagações se transformam em rotina automática para o tradutor, Rónai faz algumas objeções, especialmente em relação à segunda pergunta: “Não porque às vezes é difícil saber o que o autor quis dizer; mas também porque, mesmo sabendo-o, o tradutor deve traduzir não o que ele quis dizer, mas o que ele disse na realidade”, não devendo, por exemplo, explicitar uma ironia. (p. 112) Supondo a resposta de Savory de que o conhecimento das intenções do autor serviria apenas para compreender melhor o original, e não como norma de procedimento, Rónai objeta que “poderíamos perguntar-lhe por que o tradutor deve fazer a si mesmo apenas três perguntas e não quatro, cinco ou seis”, e sugere algumas outras questões:

- Qual a “impressão que o original deve exercer sobre os conterrâneos do autor?”; - Qual a impressão que o original deixou nos contemporâneos do autor, no caso de um texto antigo?; - Como “a mensagem contida no trecho se vazaria naturalmente na sua própria língua?” (p. 112-113)

Antes, porém, de comentar esses pontos, Rónai responde a outra sugestão de Savory, a da reader-analysis, segundo a qual o estilo da tradução deveria depender da classe social à qual ela se destina. Na verdade este princípio poderia servir apenas aos adaptadores. (p. 113) Voltando à primeira pergunta suplementar que tinha sugerido, o autor nos diz que ela

envolve a norma, tantas vezes enunciada e que à primeira vista parece óbvia, de que a tradução deve dar aos leitores a ideia de a obra ter sido escrita em sua própria língua. Mas por mais perfeita que seja a interpretação, a impressão do leitor estrangeiro sempre será diferente da do leitor patrício do autor, e que lê a obra com o entendimento moldado por um background e uma experiência comuns. (...)
Por isso certos teóricos da tradução sustentam que o autor deve pôr inteiramente de lado essa preocupação e deixar que o seu trabalho fique com um sabor exótico e uma parcela de opacidade. (p. 113-114)

Quanto à segunda pergunta adicional, a respeito de obras clássicas, o efeito que elas causavam nos contemporâneos do autor e o que suas traduções deveriam causar nos contemporâneos do tradutor, Rónai comenta diferentes vertentes entre os tradutores: há aqueles que procuram conseguir o mesmo efeito arcaizando a linguagem, e aqueles que o tentam alterando radicalmente o original, “modernizando” sua linguagem. Mas, pensando na validez do princípio, são apresentadas duas objeções:

primeiro, faltam-nos meios objetivos para ajuizar o efeito que a obra exerceu sobre os contemporâneos do autor; segundo, a pátina faz parte de uma obra clássica: se as obras originais (como as de Shakespeare no caso de um leitor inglês) a conservam eternamente, não é recomendável que as traduzidas a percam de todo, despojadas dos sinais do momento histórico que as fez nascer. (p. 114-116)

Lembrando outro ensaísta, o alemão Julius Wirl, Rónai cita sua classificação dos originais em específicos, que causam a mesma impressão em todos os leitores, e não-específicos, que chamamos de literários. Os primeiros seriam de traduzibilidade absoluta, enquanto para os segundos só seriam possíveis aproximações, já que não existe uma tradução perfeita para nenhuma obra literária. Isto nos faz compreender não somente o surgimento simultâneo de várias traduções, mas também a retradução, em cada época, de obras clássicas, como a Eneida. (p. 116-117)

Com a Eneida chegamos à tradução poética, que o autor considera mais assimilável à arte que à técnica, tendo por isso dificuldades e falácias que “ultrapassam as da tradução em prosa”. Entretanto, “mais ou menos conscientes das dificuldades da sua tarefa, os tradutores sabem ser impossível salvar todos os valores do original e por isso sempre consentem em sacrificar alguma coisa”. (p. 117-118)

Para ilustrar as dificuldades e a variedade de posicionamentos dos tradutores diante da tradução poética, Rónai faz uma comparação de onze traduções de três versos da Eneida escolhidos aleatoriamente. (p. 118-124)

Por fim, o autor trata da falácia mais frequentemente comentada da tradução, a fidelidade. O que geralmente se espera de um tradutor é que ele seja fiel ao sentido do original. Mas, como foi visto no início do livro, uma palavra, ou mesmo uma frase inteira, pode ter vários sentidos, conforme o contexto. Apesar de muitos teóricos terem tentado definir a molécula mínima de um texto que deveria ser traduzida fielmente (unit of utterance, unidade de expressão), nunca chegaram a um acordo quanto à sua extensão. Rónai repete sua opinião de que o tradutor mais fiel seria aquele que conseguisse esquecer as palavras da mensagem original e depois se lembrar de seu conteúdo para reformulá-la na sua própria língua. “Claro, a sua mente recortaria a mensagem em parcelas curtas para poder fixá-las, parcelas desiguais que seriam ora uma palavra só, ora uma frase, ora um parágrafo. E para a mensagem ser compreendida, ele trataria de conformá-la o mais possível aos usos, hábitos e regras de sua própria língua”. Assim, mais uma vez Rónai lembra que a fidelidade é uma obrigação dupla para com o original e para com a língua-alvo. (p. 125-128)

O desafio da tradução poética[edit | edit source]

Aqui Rónai desenvolve mais a questão da tradução poética, introduzida no capítulo anterior. Mostra que existem diferentes tendências: os que defendem a tradução da poesia em prosa, para maior fidelidade ao sentido, e os que defendem uma recriação artística do poema traduzido, sem se prender apenas ao sentido. As duas correntes têm suas variantes. O autor exemplifica o que se pode perder na tradução por meio de um rubai de Fitzgerald, dos poemas “Repouso” de Henriqueta Lisboa, “Roma” de Cecília Meireles, “Poema de Sete Faces” de Drummond e em algumas quadras de Fernando Pessoa. (p. 129-139)

Rónai ressalta, antes de iniciar sua vasta exemplificação: “Não seria difícil demonstrar como traduções canhestras podem prejudicar a mais alta mensagem poética. Preferi selecionar versões boas em que se pode apalpar não a imperícia dos tradutores, mas a resistência do material com que trabalham”. (p. 130)

Depois o autor ainda fala de dois extremos da tradução poética: a versão inglesa de Ievgueni Onieguin, de Puchkin, por Vladimir Nabokov, e as versões, em especial de Horácio, feitas por Ezra Pound. (p. 139-146)

Para falar do problema das rimas, são usados o soneto de Arvers e suas traduções. (p. 146-150)

Por fim, Rónai comenta experiências de versão poética por meio da colaboração entre conhecedores da língua do original e poetas da língua da tradução, em especial a experiência nesse sentido feita por Ladislas Gara, organizador da Antologia da Poesia Húngara, lançada na França. (p. 150-156)

Saldos de balanço[edit | edit source]

Os dois últimos capítulos do livro são bastante pessoais. Neste, Rónai conta suas reminiscências de tradutor, primeiro na Hungria, sua terra natal, depois no Brasil, onde conheceu Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, grande amigo e colaborador em diversos trabalhos. Rónai conta uma história de décadas no oficio da tradução, passando praticamente por todas as suas modalidades, até chegar nos estudos sobre teoria e técnica da tradução e à fundação da ABRATES — Associação Brasileira de Tradutores. (p. 157-177)

A operação Balzac[edit | edit source]

Rónai termina o livro narrando e comentando a organização da edição brasileira de A Comédia Humana, de Honoré de Balzac, trabalho que o ocupou durante quinze anos e resultou em dezessete volumes. Coube a ele estabelecer o plano geral da edição, escolher parte da equipe de tradutores (composta de mais de vinte tradutores), cotejar e anotar toda a tradução (que contém cerca de 12.000 notas), prefaciar todas as 89 obras que a compõem, escrever uma longa biografia de Balzac, selecionar a documentação iconográfica, reunir uma espécie de antologia da literatura crítica sobre o autor, organizar índices e concordâncias para o volume final. Mesmo depois de publicada, Rónai ainda continuou relendo e estudando Balzac, tendo “revisto e emendado os dezessete volumes da edição, cada vez que me tem ocorrido algum aperfeiçoamento, sobretudo no tocante à biografia inicial, aos oitenta e nove prefácios e às 12.000 notas”. Sua única mágoa, que confessa ao fim do capítulo, é não ter podido aproveitar essas emendas e anotações, já que a Comédia Humana brasileira, apesar de seu êxito razoável, ainda não tinha sido reeditada. (p. 178-199)