A virada tecnológica dos Estudos da Tradução

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Tecnologias da tradução - uma nova disciplina acadêmica no mapa dos Estudos da Tradução[edit | edit source]

No capítulo "The Impact of new technologies on translation studies"[1], de The Routledge handbook of translation studies, de 2013 Minako O'Hagan, pesquisadora da Universidade de Auckland, se propõe a fazer uma análise crítica sobre os efeitos das transformações tecnológicas sobre a tradução em contextos amplos. Ela justifica a relevância dessa análise pelo aprofundamento da relação entre tradução e tecnologia num macro e num microcosmo, e assinala a importância de se estudar esse aprofundamento numa disciplina acadêmica específica.

Macro e Microcosmo da relação entre tecnologia e tradução[edit | edit source]

No macrocosmo, pela criação de novos conteúdos e produtos tecnológicos que, num nível micro, exigem tecnologias de tradução específicas. Os exemplos mais claros dessa interação é a localização de software, de games e de websites, ou o desenvolvimento de novas mídias audiovisuais, como as plataformas de streaming de áudio e vídeo, como Spotfy e Netflix.

Essas plataforma de conteúdos digitais, surgidas nos últimos 30 anos, demandaram o surgimento de tecnologias específicas para tradução, uma novidade na história da humanidade pois, até então, a tradução empregava as tecnologias de escrita comuns a todas as demais atividades. A primeira a dessas tecnologias a se tornar relevante para a indústria da tradução foi a memória de tradução. Embora esforços para o desenvolvimento de tecnologias baseadas em tradução por máquina, ou automática, viessem sendo feitos desde os anos 1950, somente com o evento das memórias de tradução é que houve uma adoção de tecnologia específica por parte dos profissionais e empresas de tradução.

Somem-se à tecnologia baseada em memória de tradução a tradução automática, as ferramentas colaborativas e a complexificação dos sistemas de busca e pesquisa terminológica.

O tradutor ciborgue[edit | edit source]

Tradução e tecnologia se tornaram de tal forma indissociáveis que Michael Cronin, em seu Translation and Globalization[2], fala no tradutor ciborgue: aquele profissional cuja prática só é viabilizada por seu íntimo envolvimento com recursos tecnológicos específicos para potencializar sua produção. Essa interação transformou completamente o perfil do profissional de tradução e permitiu a entrada de inúmeros outras perfis de tradutores, via plataformas de tradução colaborativa e tradução por máquina.

Tecnologia e qualidade[edit | edit source]

O'Hagan sinaliza o que alguns autores consideram como riscos à qualidade da tradução advindos pela adoção das novas tecnologias:

  • Foco excessivo nos ganhos de produtividade, em detrimento da qualidade textual.
  • Empobrecimento lexical, e sintático, para o aumento de repetições e matches com a TM.
  • Confiança cega nas sugestões da TM e das bases terminológicas.

Por outro lado, existem diversos argumentos favoráveis a adoção das tecnologias da tradução como instrumentos de controle e melhoria da qualidade, tais como:

  • Suporte à uniformidade e coesão estilística.
  • Facilitação dos processos de revisão.
  • Ampliação das bases de referência e pesquisa.

Impacto negligenciado pela pesquisa[edit | edit source]

O'Hagan refere-se a Jeremy Munday[3] ao assinalar como os Estudos da Tradução historicamente negligenciaram o impacto da tecnologia sobre a atividade. Em particular, ela remete à falta de teorização da prática da localização. Para tal ela cita Tony Hartley que, no capítulo "Technology and translation", do livro de Munday[4], diz:

For example, as highlighted by Hartley (2009: 107), the industry treats localization as a special form of translation ‘that takes into account the culture of the location or region’ and yet this is ‘simply a commonly accepted definition of translation itself’ in translation studies.

Tal conclusão pode ser considerada equivocada, uma vez que a indústria considera a tradução como uma das etapas do projeto de localização, que inclui ainda atividades de engenharia, internacionalização e tratamento gráfico para preparar um produto digital para diferentes mercados locais.

O caminho adotado por Michael Cronin e outros autores para ir além de uma abordagem meramente de constatação do que são as tecnologias da tradução e de seu impacto foi buscar entender o lugar da tradução no contexto histórico da Globalização.

Novas práticas, novos termos e definições[edit | edit source]

Com o surgimento das tecnologias, no macro e no microcosmos, surgiram novas práticas e modos de traduzir. Isso implicou na necessidade de atualização de conceitos, como o da própria tradução, mas também da incorporação de nova terminologia, que inclui termos como "localização", "internacionalização", "conteúdo de partida e de chegada" (em lugar de texto), sem falar na própria terminologia específica de cada área, como fica claro na localização de software, em que palavras como pasta e arquivo passaram a ser usadas em contextos muito diferentes daqueles em que eram anteriormente adotadas.

A tecnologia da tradução na taxonomia de James Holmes[edit | edit source]

Em sua formulação da disciplina Estudos da Tradução, Jame Holmes[5], propõe adotar a divisão clássica entre estudos puros e estudos aplicados. Dentro dessa divisão, os estudos dedicados à tecnologia acabaram sendo voltados muito mais para a pesquisa aplicada do que para a pesquisa pura. São mais frequentes os estudos voltados para a incorporação do ensino de uso de ferramentas na formação de tradutores do que as implicações sócio-históricas dessas ferramentas para o universo tradutório, por exemplo.

Potenciais áreas de pesquisa[edit | edit source]

O'Hagan menciona algumas áreas às quais a pesquisa poderia se dedicar com maior intensidade.

  • Corpora eletrônicos, incluindo memórias de tradução vistas como corpora bilíngues
  • Processos cognitivos usando tecnologias baseadas em rastreamento do olhar, eletroencefalograma, tomografia funcional, etc.
  • Impacto sobre o leitor/usuário de novos recursos tradutórios nos conteúdos de chegada, como glossários pop-up.
  • Novas práticas tradutórias por "não tradutores", fansub, fantranslation, volunteer translation (wikis, etc)
  • Estudos sobre novas terminologias adotadas pelo universo da tradução.

A virada tecnológica e as perspectivas para os Estudos da Tradução[edit | edit source]

É comum ouvir de pesquisadores sensíveis às mudanças que a pesquisa em tradução perdeu diversas oportunidades de contribuir para o desenvolvimento das tecnologias da tradução e que boa parte dessas tecnologias foi desenvolvida sem recorrer a tradutores, linguistas ou pesquisadores da área. Essa afirmação é feita sem muitos dados empíricos e resulta, em geral, de uma percepção geral de que falta diálogo e interação entre a área de desenvolvimento tecnológico e a área macro de estudos da linguagem, na qual os estudos da tradução estão inseridos.

Essa falta de interação entre as diferentes areas remonta à década de 1950, e, para contornar a questão, O'Hagan sugere a "virada tecnológica" dos Estudos da Tradução. Destaque-se que ela é uma das principais pesquisadoras dessa área, com trabalhos importantes dedicados à localização de jogos.

  1. O'Hagan, Minako (2013): "The impact of new technologies on translation studies - A technological turn?" Em: Carmen Millán e Francesca Bartrina (Ed.): The Routledge handbook of translation studies. Milton Park, Abingdon, NY: Routledge (Routledge handbooks in applied linguistics), pág. 503–518.
  2. Cronin, Michael (2003): Translation and globalization. London: Routledge.
  3. Munday, Jeremy (Ed.) (2009): The Routledge companion to translation studies. London, New York: Routledge (Routledge companions).
  4. Hartley, Tony, "Technology and Translation", em Munday, Jeremy (Ed.) (2009): The Routledge companion to translation studies. London, New York: Routledge (Routledge companions).
  5. James Holmes (2000): The Name and Nature of Translation Studies. Em: Lawrence Venuti (Ed.): The Translation studies reader. London, New York: Routledge, pág. 172–185.