O médico e o tradutor

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Preços e estratégias de valorização profissional[edit | edit source]

Em todas as áreas existem profissionais caros e baratos. Houve uma época em que praticamente todos os médicos, dentistas, advogados e engenheiros ganhavam muito dinheiro. Hoje não.

Hoje tem médico que cobra R$800,00 a consulta e médico que cobra R$50,00.

Hoje tem advogado que cobra R$300,00 pra pegar um caso e advogado que cobra R$6000,00 só para assumir uma causa.

Tem dentista que cobra R$3000,00 por um tratamento de canal e outros que cobram R$500,00.

Tem pedreiro que cobra R$50,00 para fazer um servicinho na cozinha, e outros que cobram R$250,00 pelo mesmo serviço.

Há faxineiras diaristas que cobram R$50,00 a diária de 8h e outras que cobram R$200,00 a diária de 4h.

Tem lava-jato onde você lava seu carro por R$30,00 e lava-jato de R$120,00 a lavagem (e tem mercado para todo esse pessoal acima).

E essa diferenciação de preços é saudável para a economia. Senão haveria o que chamamos de cartel. O que inclusive é proibido.

Tudo isso se aplica a tradutores.

Esse texto foi originalmente postado pelo [João Marcelo Trovão] em nossa comunidade do Facebook Tradutores/Intérpretes

Por que tem gente que acha que só tradutor deveria tudo cobrar um preço só? Claro que é normal haver tradutores que cobrem R$0,45 por palavra e outros cobrando R$0,05. É uma profissão/nicho de mercado como outro qualquer.

Assim como há profissionais diferenciados, pois com certeza o médico que cobra R$800,00 tem cacife pra isso, ou seja, deve ter renome, um doutorado, ser famoso por uma pesquisa, etc., há clientes diferenciados. Os clientes que frequentam o consultório de R$800,00 não são os mesmos que frequentam o de R$50,00.

Os clientes que procuram tradutores de R$0,30 por palavra são diferenciados. Podem pagar esse valor sem problemas, estão mais preocupados com questões de qualidade que de preço, etc.

Entretanto, assim como um médico que cobra R$800,00 a consulta, é preciso ter algo a oferecer, um diferencial para atrair essa clientela. Não é só aumentar o preço, é agregar valor. Ter uma certificação, uma pós, uma graduação na área em que traduz, oferecer um diferencial como serviço em servidor, etc.

Bem, por outro lado há clientes que não podem pagar R$0,30. Há outros que podem, mas não querem, direito deles. É como alguém que tem condição de pagar por uma pizza de R$90,00, mas prefere comprar uma de R$50,00, porque acha que é desperdício dar R$90,00 em uma pizza.

Os tradutores mais baratos atendem estes clientes. Eles são necessários, doa a quem doer, e sempre vão existir. Alguém tem que atender estes clientes. Assim como alguém tem que atender os clientes mais caros.

Resta saber que categoria você se encaixa, ou pode se encaixar. Nenhuma é menos digna. Nenhuma merece menos respeito.

Agora se você quer mudar de categoria, não fique parado esperando que apareçam clientes do nada pagando o dobro ou triplo do que você ganha. "If you continue doing the same things, you will continue getting the same results." Foi exposto acima que é normal termos tradutores que cobram pouco e outros que cobram muito, assim como ocorre em outras profissões. Isso faz parte da economia.

Para demonstrar isso na prática vou fazer um paralelo entre o tradutor e outra profissão. Foi escolhida a profissão de médico, mas poderia ser advogado, designer, arquiteto, etc. Qualquer profissional autônomo, para ser mais exato. Também foi desconsiderado o fato de que médicos precisam de registro em conselho profissional e tradutores não.

Neste paralelo os hospitais e planos de saúde serão equivalentes às agências, e os pacientes particulares serão equivalentes aos clientes diretos.

Quando um médico acaba de sair da faculdade, salvo raras exceções, não começa ganhando bem.

Geralmente aceita trabalhar para um plano de saúde, recebendo cerca de R$40,00 uma consulta, e atendendo 20 pacientes em uma manhã. Ou então vai trabalhar em uma emergência de um hospital, recebendo um salário fixo, perdendo noites de sono e fins de semana, e este salário no final do mês equivaleria a bem menos que R$40,00 a consulta.

Também é obrigado a fazer certos investimentos. Se quiser abrir um consultório, terá que alugar o local, comprar aparelhos, etc. Muitas vezes participa de uma associação não obrigatória, como, por exemplo, Associação de Dermatologistas de São Paulo. Já consegue atender uns pacientes por R$100,00 a consulta.

Ao trabalhar para um plano de saúde ou hospital, consegue se sustentar, e o mais importante, começa a ganhar experiência e nome. Participando de congressos, encontros, etc., vai conhecendo outros médicos. Muito possivelmente pode conseguir recomendações. Se for um cardiologista, por exemplo, um colega seu clínico geral encaminharia pacientes a ele. Mas claro que só encaminharia os pacientes se tivesse certeza que é um bom médico.

Se trabalhar bem, muitos pacientes seus irão recomendá-lo para outras pessoas que precisem da mesma especialidade. Se tiver um consultório, pode cobrar preços acessíveis, e dividir seu tempo atendendo para plano de saúde e para clientes particulares, que pagam um pouco mais que o plano de saúde.

Para melhorar seus serviços, faz uma especialização, mestrado, doutorado, etc. Em um curso desses aproveita e faz networking com outros médicos, que não hesitam em enviar pacientes.

Começa a ter nome e ser uma referência. Já pode cobrar uns R$300,00 a consulta, e sempre terá o consultório cheio. Pode se dar ao luxo de deixar de trabalhar para planos de saúde.

Mas nem sempre foi assim. No começo teve que ralar muito e ser apenas mais um na multidão. Como é um profissional liberal, precisa garantir sua aposentadoria e pé de meia. Faz uma poupança, um plano de aposentadoria privada, e também paga o INSS. Com um pouco mais de renome, pode começar a trabalhar para hospitais que pagam bem, e passar a lidar com uma clientela mais seleta. Atende em um hospital de renome e recebe cerca de R$500,00 a consulta, com uns cinco pacientes pela manhã. Em seu consultório particular já cobra uns R$700,00, e atende apenas cinco pacientes pela tarde. Trabalha menos e ganha mais.

É, mas não foi fácil. Teve que começar ganhando pouco para ganhar experiência e nome. Teve que estudar e se especializar. Teve que se esforçar para não cometer erros e manter a boa fama. E não pulou de R$40,00 para R$700,00 a consulta, foi um processo gradual e lento.

Alguma semelhança com o tradutor?